Eu
nunca fui muito fã de queijo. Até os 18 anos, eu não comia nada que tivesse
queijo, nem pizza. Frequentava apenas uma pizzaria na minha cidade na qual
preparavam especialmente para mim pizzas sem queijo. Achava que queijo tinha
gosto de podre, não podia nem sentir o cheiro.
Aos
poucos, meu paladar foi mudando e comecei a aceitar um pouco melhor os queijos
suaves, como a mozzarella. Só comia se o queijo estivesse quente (numa pizza ou
molho). Ainda assim, levaram alguns anos para eu realmente começar a apreciá-lo.
Dos
queijos de sabor forte, o único que me dava algum prazer de comer era o Grana
Padano, mas ainda assim, comia-o com uma certa culpa, tendo em vista que queijo
é algo muito calórico.
Ano
passado fui para a França, e fiz alguns cursos de culinária lá. Num deles, nos
ofereceram alguns queijos diferentes para provar, e, surpresa: adorei! Pela
primeira vez, tive vontade de ir ao supermercado para comprar queijo. E me
esbaldei. Num supermercado relativamente pequeno, deparei-me com uma prateleira
gigante com os mais variados tipos de queijos. Fiquei quase uma hora ali lendo
rótulos e escolhendo sabores. Eu queria provar todos! Comprei uns 4 ou 5 tipos
diferentes. Comi-os todos os dias enquanto eu estava lá. Roquefort de cabra foi
eleito o meu preferido enquanto estava na França.
Percebi
que precisava aprender mais sobre o mundo dos queijos, então me inscrevi num
curso de harmonização de queijos e cervejas artesanais em Nova York. Honestamente,
quando fiz a inscrição eu estava muito mais animada com a parte das cervejas do
que com a dos queijos. Mas, novamente, tive uma maravilhosa revelação: os
queijos eram uma delícia. Tivemos uma pequena confraternização antes do curso
na qual estavam distribuídos sobre uma longa mesa diversos tipos de queijos,
harmonizados com espumante, e ao fundo da mesa tinha uma panelinha de fondue.
Aquele foi o melhor fondue que já comi na vida! Provei todos, sem peso na
consciência. Tinha um sabor único, não era forte e nem fraco, derretia na boca.
Fui aos céus com aquele fondue. Porém, logo a instrutora me chamou para a Terra
ao informar que o curso começaria em 5min.
Na
sala, havia um prato com 7 tipos de queijo à nossa frente, e 5 cervejas
diferentes para harmonização. Recebemos uma folha com uma grade com as 35
combinações, e deveríamos provar um pedaço de queijo, segurando-o no céu da boca,
e tomar um gole de cerveja, prestar atenção nas percepções, e dar uma nota para
cada combinação. Primeiramente, nós provamos todas as cervejas sem nenhum
queijo, para conhecer o gosto delas. Depois provamos todos os queijos, sem
nenhuma cerveja, com o mesmo objetivo. E somente após estes testes é que
iniciamos a harmonização. O primeiro queijo com a primeira cerveja, que era
leve, não me fez sentir uma boa sensação, não senti direito nem o gosto do
queijo e nem o da cerveja. Nota zero (que era a nota neutra). As notas variavam
entre -2 (muito ruim), -1 (ruim), 0 (neutro), 1 (agradável), 2 (ótimo). Já com
a segunda cerveja ele caiu melhor, nota 1. Porém, a terceira cerveja foi a que
mais me surpreendeu. Ela era uma cerveja com um toque floral. Eu nunca tinha
experimentado nada igual. Quando provei-a sozinha, não gostei. Tinha gosto de
perfume. Porém, ao combinar com alguns queijos específicos, achei deliciosa.
Isso me encantou. Desde este dia, eu comecei a prestar muito mais atenção no
sabor de cada alimento ou bebida. Aprendi a valorizar a boa harmonização, e
entender o quanto ela é importante. Eu não consegui experimentar todas as
combinações, afinal, eram 35! Então selecionei algumas, até que meu estômago
pediu uma trégua para não explodir de tanta cerveja e queijo. E foi concedida a
trégua. Nós podíamos levar os queijos que sobrassem embora, e a cerveja nós
podíamos repetir quantas vezes fossem necessárias. O pessoal que fez o curso
comigo (eu calculo que umas 30 pessoas, pelo menos) era muito bacana.
Trocávamos idéias das sensações entre nós e com a professora (que era uma super
especialista em queijos e harmonizações).
Dica:
quando vocês forem participar de uma harmonização, experimentem sempre pedaços
pequenos, o menor possível, e tomem goles pequenos. Senão não tem como provar
tudo.
Este
curso eu fiz numa queijaria chamada Artisanal (http://www.artisanalcheese.com/). Eles
têm também um restaurante (fromagerie) no qual é possível experimentar muitos
queijos e também jantar. As inscrições no curso são feitas pelo site. O meu
curso custou US$ 75,00, o que achei barato, considerando que tivemos aula,
refeições e muita diversão. Há outros cursos, como por exemplo harmonização de
queijos e vinhos (super badalado e procurado), e fondue. Recomendo muito, e
quando eu for para a Big Apple de novo, certamente voltarei lá e quem sabe me
inscreverei em mais um curso, porque amei!
A
partir deste curso, meu interesse por queijos aumentou. Comecei a procurar pela
cidade queijos especiais, e tenho tentado ler e entender um pouco mais sobre
eles.
Ontem
fui jantar num dos meus restaurantes preferidos, o Bistrô São Lourenzo (http://www.saolourenzo.com.br/), que
fica na Rua Luiz Antunes, 205, Bairro Panazzolo, em Caxias do Sul – RS, e o
chef Alex Szigethy nos agraciou com uma deliciosa burrata. Nunca tinha comido-a
aqui no Brasil. Experimentei-a apenas uma vez, na Itália, e adorei. A burrata é
um queijo italiano em forma de uma bola, feito de mozzarella de búfala e
recheado com uma espécie de cream cheese. Ela é um pouco densa por fora e super
cremosa por dentro. No Brasil, ela é feita apenas em Minas Gerais, de onde o
Alex se deu o trabalho e o cuidado de trazer. Foi servida como entrada, acompanhada
de tomates-uva e manjericão. Quando a garçonete colocou a burrata na nossa
mesa, meus olhos brilharam! Estava tão ansiosa
para prová-la que nem sequer uma foto tirei. Quando coloquei-a na boca,
hmmm, que sensação fantástica! Sabor suave, textura perfeita, salgadinha. Tenho
água na boca só de lembrar. E a melhor notícia é que o restaurante deve
mantê-la sempre no cardápio a partir de agora. É super difícil encontrar
burrata em restaurantes brasileiros, então parabenizo o bistrô caxiense pela
iniciativa de proporcionar a nós a oportunidade de conhecer e apreciar este
maravilhoso queijo italiano.
Ontem
elegi a burrata como meu queijo preferido, e recomendo a todos os que apreciam
esta iguaria a irem lá provar. Para mim,
a comida é 50% sabor e 50% textura, e muitas vezes acabo valorizando mais a
textura do que o sabor em si. E a burrata tem uma textura única.
Com
certeza continuarei a investir em mais e mais conhecimento acerca deste mundo
dos queijos, que até 10 anos atrás para mim era completamente desconhecido, e
aos poucos me proporcionou ótimas experiências gastronômicas.
OBS: as fotos, com exceção da foto do curso de cervejas e queijos, foram retiradas da internet.






