sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Queijos, uma bela e deliciosa surpresa!


Eu nunca fui muito fã de queijo. Até os 18 anos, eu não comia nada que tivesse queijo, nem pizza. Frequentava apenas uma pizzaria na minha cidade na qual preparavam especialmente para mim pizzas sem queijo. Achava que queijo tinha gosto de podre, não podia nem sentir o cheiro.
Aos poucos, meu paladar foi mudando e comecei a aceitar um pouco melhor os queijos suaves, como a mozzarella. Só comia se o queijo estivesse quente (numa pizza ou molho). Ainda assim, levaram alguns anos para eu realmente começar a apreciá-lo.
Dos queijos de sabor forte, o único que me dava algum prazer de comer era o Grana Padano, mas ainda assim, comia-o com uma certa culpa, tendo em vista que queijo é algo muito calórico.

Ano passado fui para a França, e fiz alguns cursos de culinária lá. Num deles, nos ofereceram alguns queijos diferentes para provar, e, surpresa: adorei! Pela primeira vez, tive vontade de ir ao supermercado para comprar queijo. E me esbaldei. Num supermercado relativamente pequeno, deparei-me com uma prateleira gigante com os mais variados tipos de queijos. Fiquei quase uma hora ali lendo rótulos e escolhendo sabores. Eu queria provar todos! Comprei uns 4 ou 5 tipos diferentes. Comi-os todos os dias enquanto eu estava lá. Roquefort de cabra foi eleito o meu preferido enquanto estava na França.
Percebi que precisava aprender mais sobre o mundo dos queijos, então me inscrevi num curso de harmonização de queijos e cervejas artesanais em Nova York. Honestamente, quando fiz a inscrição eu estava muito mais animada com a parte das cervejas do que com a dos queijos. Mas, novamente, tive uma maravilhosa revelação: os queijos eram uma delícia. Tivemos uma pequena confraternização antes do curso na qual estavam distribuídos sobre uma longa mesa diversos tipos de queijos, harmonizados com espumante, e ao fundo da mesa tinha uma panelinha de fondue. Aquele foi o melhor fondue que já comi na vida! Provei todos, sem peso na consciência. Tinha um sabor único, não era forte e nem fraco, derretia na boca. Fui aos céus com aquele fondue. Porém, logo a instrutora me chamou para a Terra ao informar que o curso começaria em 5min.

Na sala, havia um prato com 7 tipos de queijo à nossa frente, e 5 cervejas diferentes para harmonização. Recebemos uma folha com uma grade com as 35 combinações, e deveríamos provar um pedaço de queijo, segurando-o no céu da boca, e tomar um gole de cerveja, prestar atenção nas percepções, e dar uma nota para cada combinação. Primeiramente, nós provamos todas as cervejas sem nenhum queijo, para conhecer o gosto delas. Depois provamos todos os queijos, sem nenhuma cerveja, com o mesmo objetivo. E somente após estes testes é que iniciamos a harmonização. O primeiro queijo com a primeira cerveja, que era leve, não me fez sentir uma boa sensação, não senti direito nem o gosto do queijo e nem o da cerveja. Nota zero (que era a nota neutra). As notas variavam entre -2 (muito ruim), -1 (ruim), 0 (neutro), 1 (agradável), 2 (ótimo). Já com a segunda cerveja ele caiu melhor, nota 1. Porém, a terceira cerveja foi a que mais me surpreendeu. Ela era uma cerveja com um toque floral. Eu nunca tinha experimentado nada igual. Quando provei-a sozinha, não gostei. Tinha gosto de perfume. Porém, ao combinar com alguns queijos específicos, achei deliciosa. Isso me encantou. Desde este dia, eu comecei a prestar muito mais atenção no sabor de cada alimento ou bebida. Aprendi a valorizar a boa harmonização, e entender o quanto ela é importante. Eu não consegui experimentar todas as combinações, afinal, eram 35! Então selecionei algumas, até que meu estômago pediu uma trégua para não explodir de tanta cerveja e queijo. E foi concedida a trégua. Nós podíamos levar os queijos que sobrassem embora, e a cerveja nós podíamos repetir quantas vezes fossem necessárias. O pessoal que fez o curso comigo (eu calculo que umas 30 pessoas, pelo menos) era muito bacana. Trocávamos idéias das sensações entre nós e com a professora (que era uma super especialista em queijos e harmonizações).
Dica: quando vocês forem participar de uma harmonização, experimentem sempre pedaços pequenos, o menor possível, e tomem goles pequenos. Senão não tem como provar tudo.
Este curso eu fiz numa queijaria chamada Artisanal (http://www.artisanalcheese.com/). Eles têm também um restaurante (fromagerie) no qual é possível experimentar muitos queijos e também jantar. As inscrições no curso são feitas pelo site. O meu curso custou US$ 75,00, o que achei barato, considerando que tivemos aula, refeições e muita diversão. Há outros cursos, como por exemplo harmonização de queijos e vinhos (super badalado e procurado), e fondue. Recomendo muito, e quando eu for para a Big Apple de novo, certamente voltarei lá e quem sabe me inscreverei em mais um curso, porque amei!

A partir deste curso, meu interesse por queijos aumentou. Comecei a procurar pela cidade queijos especiais, e tenho tentado ler e entender um pouco mais sobre eles.
Ontem fui jantar num dos meus restaurantes preferidos, o Bistrô São Lourenzo (http://www.saolourenzo.com.br/), que fica na Rua Luiz Antunes, 205, Bairro Panazzolo, em Caxias do Sul – RS, e o chef Alex Szigethy nos agraciou com uma deliciosa burrata. Nunca tinha comido-a aqui no Brasil. Experimentei-a apenas uma vez, na Itália, e adorei. A burrata é um queijo italiano em forma de uma bola, feito de mozzarella de búfala e recheado com uma espécie de cream cheese. Ela é um pouco densa por fora e super cremosa por dentro. No Brasil, ela é feita apenas em Minas Gerais, de onde o Alex se deu o trabalho e o cuidado de trazer. Foi servida como entrada, acompanhada de tomates-uva e manjericão. Quando a garçonete colocou a burrata na nossa mesa, meus olhos brilharam! Estava tão ansiosa  para prová-la que nem sequer uma foto tirei. Quando coloquei-a na boca, hmmm, que sensação fantástica! Sabor suave, textura perfeita, salgadinha. Tenho água na boca só de lembrar. E a melhor notícia é que o restaurante deve mantê-la sempre no cardápio a partir de agora. É super difícil encontrar burrata em restaurantes brasileiros, então parabenizo o bistrô caxiense pela iniciativa de proporcionar a nós a oportunidade de conhecer e apreciar este maravilhoso queijo italiano.

Ontem elegi a burrata como meu queijo preferido, e recomendo a todos os que apreciam esta iguaria a irem lá provar.  Para mim, a comida é 50% sabor e 50% textura, e muitas vezes acabo valorizando mais a textura do que o sabor em si. E a burrata tem uma textura única.
Com certeza continuarei a investir em mais e mais conhecimento acerca deste mundo dos queijos, que até 10 anos atrás para mim era completamente desconhecido, e aos poucos me proporcionou ótimas experiências gastronômicas.

OBS: as fotos, com exceção da foto do curso de cervejas e queijos, foram retiradas da internet.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Cidade do Cabo: never too late

            Este texto foi escrito pelo meu grande amigo e meu ex-professor de inglês Ricardo Heinen*, que se aventurou até o outro lado do oceano e ficou um mês na África do Sul estudando e passeando. O texto, bastante jornalístico, tendo em vista que esta era sua profissão antes de se tornar professor, nos revela uma visão interessante e diferente da segunda maior cidade daquele país. 
           Tem sido crescente a procura por pacotes e intercâmbios para a Cidade do Cabo, e todo mundo que vai para lá se encanta. Aqui está explicado um pouco do porquê.

"Pouco tempo antes de completar 50 anos, uma idade em que a maioria dos homens se ocupa com pouco mais do que família, trabalho, renda e aposentadoria, um dos meus alunos particulares mencionou ter garimpado uma atraente oferta de intercâmbio na Cidade do Cabo, África do Sul. A proposta envolvia um curso em uma renomada escola de inglês, acomodação individual e refeições em uma casa de família, passagens aéreas e transfer. As tardes sem aulas ainda prometiam tempo livre para eventuais excursões ao Cabo da Boa Esperança, a parques nacionais (safaris) ou vinícolas, além, é claro, de caminhadas ao longo das praias do Atlântico.
À época, Agosto de 2011, já tinha ouvido inúmeros testemunhos francamente favoráveis à organização e às belezas naturais dessa cosmopolita, moderna e rica ex-colônia holandesa e britânica, um movimentado entreposto comercial entre o Ocidente e o Oriente, mas a ideia de ficar hospedado em uma casa de estranhos, sem garantia de que poderia manter meus rituais diários de banho, siesta e leitura, parecia-me um tanto arriscada. Além disso, vitaminados pela distorcida mídia de que somos mais vítimas do que consumidores, meus receios tinham sido sempre maiores do que o poderia ser a curiosidade em relação ao continente africano. 
Viajar, no entanto, não me intimidava, tampouco me soava como algo extraordinário, pois não apenas há muito dominava a língua de Shakespeare como também já tinha visitado quase duas dezenas de países, mas será que essas aventuras, que tinham se dado em viagens de três dias a duas semanas, e quase todas baseadas na segurança daquele tripé mochila-albergue-Europa, poderiam me credenciar ao tão sonhado título de "a seasoned traveller" (um viajante experiente)? A ensolarada e distante Cape Town, como se chama em inglês, acenava então como uma possibilidade de variar um pouco o repertório, pontuado por visitas a Paris e Lisboa, e longas estadas na Inglaterra. Além disso, não corria o risco de pagar o mico de ser flagrado em excursões com guias que seguram bandeirinhas amarelas para turistas que tem o retorno ao lar em mente desde o momento da decolagem. Então,  o que havia a se perder? 
Baseado nessa premissa, a de que a vida começa ali bem onde se sai da zona de conforto, não hesitei em bater o martelo, e então, após a decisão ter sido tomada, a cada semana que passava aproximava-se a temida hora de partir para o desconhecido. Simon´s Town? Mergulho com tubarões? Com o pacote já comprado e todos os boletos pagos, "borboletas" me percorriam o estômago ao me deparar com aquelas informações que, ao me chegar aos olhos e ouvidos, sugeriam um mundo de mistérios ao mesmo tempo promissores e impenetráveis: senhora Latiefa Dawoo, 20 Carisbrook Road, Bokaap, Farid, Robben Island... Nomes estranhos que nem o Google Street View conseguia tornar mais familiar. 
 Todas essas apreensões iniciais, no entanto, começaram a se dissipar em primeiro de Janeiro de 2012 diante do eficiente serviço de bordo da South African Airways, ou, pelo menos, diante do efeito etílico de seus excelentes vinhos de bordo. Nem mesmo a visão de um imenso planalto avermelhado e árido, situado entre o litoral do Atlântico e o centro do continente, e tampouco a conexão perdida em Johannesburg me desanimaram. O transfer surpreendentemente funcionou, apesar do gorducho motorista ríspido que falava aquele incompreensível Afrikaans. Além disso, Cape Town me recebeu de cara amarrada, envolta em neblina, sem a vista do que lhe é mais belo, a Table Mountain, ou Devil´s Peak, ou Lion´s Head. Mas, com temperaturas próximas dos 20 graus em pleno Janeiro e a simpatia de Latiefa, uma muçulmana parda e sorridente que me conduziu a um aconchegante e amplo quarto decorado com padrões de zebra, as primeiras impressões foram ainda mais tranquilizadoras.

Na primeira manhã, após um café ao qual não faltou sequer peanut butter, sr. Gafoor, o marido, fez questão de conduzir-me em seu Jetta preto até (literalmente) a porta da escola, chamada Good Hope Studies, uma instituição que se revelou um achado. Bem organizada, agradável e muito moderna, sobretudo se comparada àquelas onde havia passado meses e meses na Inglaterra dos anos 90, a GHS situa-se no coração da cidade, entre o distrito financeiro e os Company Gardens, uma espécie de jardim botânico. A partir dela, tudo ficava perto, desde a estação de trens até o feérico Waterfront, desde o histórico Castle até as mesquitas de Bokaap, o bairro de casinhas coloridas onde fiquei instalado por 4 semanas inesquecíveis, e as quais vivi com a intensidade de uma adolescência tardia e apaixonada.

Ainda me é um mistério entender a origem do prazer diário de, mochila às costas, descer as Jordaan Street sob um sol morno e o canto dos pássaros locais. Logo a seguir, sob o colorido da bandeira do país, comerciantes negros montavam suas barracas de artesanato africano no Green Market, enquanto senhoras europeias dispunham antiguidades sobre bancadas na Market Street. A chegada à escola coincidia com o movimento nos cafés enquanto as lojas de departamento abriam suas portas. A cada dia, escolhia um novo roteiro, aleatoriamente, uma tentativa de apreender a razão do bem-estar que CT proporciona.

 A sala de aula constituía um recorte bastante preciso dos viajantes daquela extremidade da África: na maioria, jovens professores de inglês, alguns brasileiros e alguns suíços, além de alemães, argentinos e franceses. A professora, Ardine Fick, uma aquariana sempre preocupada que suas aulas fossem envolventes e que promovessem debates naturais e verdadeiros, guiava as atividades com a doçura de uma irmã e a mão de ferro de uma diretora de teatro, e assim garantia que as manhãs passassem a mil por hora. Não faltavam opções de lugares onde almoçar, embora meus prediletos fossem os restaurantes chineses ou japoneses. A comida sul-africana que conheci é quase intragável. E as tardes, após algumas horas passadas à sombra de um guarda-sol ou de algumas lojas, acabavam invariavelmente sob a vista inesquecível de uma Cape Town pontuada por minaretes e prédios high-tech, ou de uma praia incomparavelmente aprazível ou de uma montanha espetacular.

 O sol e o vento de Cape Town, que se espreme entre duas baías, podem nos pegar de surpresa, mas é a Table Mountain que merece todos os superlativos possíveis. À noite, após o jantar com os demais hóspedes da família sul-africana, saíamos para encontrar amigos recém descobertos e conhecidos nos bares, pubs e cyber cafés da Long Street, a rua mais boêmia da cidade. Em poucos dias, muitos rostos já haviam se tornado familiares, desde a loirinha gremista de Carazinho até o etíope magro e com dreads na cabeça, da francesa que bebia Coca-Cola cedo pela manhã ao segurança que mal falava uma palavra em inglês, e mesmo a mais escura das ruas já não parecia mais oferecer qualquer perigo.
Mas, como dizemos neste lado do oceano, o que é bom dura pouco, e em um piscar de olhos a terrível hora de voltar havia chegado. Um mês é muito pouco para a Cidade do Cabo. Sequer tinha escalado Lion´s Head nem me embriagado com os vinhos de Groot Constantia. Não tinha visitado um safari nem sequer conhecido Table View. Faltava comprar Amarula. E Hout Bay merecia um passeio demorado... "Next time!!!", como se diz por lá.
 Com algumas centenas de fotos, cinco quilos a menos e um bronzeado invejável, embarquei melancólico de volta ao Brasil. Estava não apenas mais leve, mas bastante rejuvenescido. Eu, que em geral volto de viagens à Europa com malas pesadas por causa das roupas para o frio, dos livros e daqueles "achados" em "Sales", dava-me conta de que, da Cidade do Cabo, eu retornava triste mas sem aquele peso imenso que talvez fosse a certeza de que o Brasil era sim o melhor país para se viver.

Viajar é preciso, mas voltar tem os seus percalços."


* Ricardo Heinen é professor particular de inglês e tradutor, com formação também em Comunicação Social pela UFSM.