sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Cidade do Cabo: never too late

            Este texto foi escrito pelo meu grande amigo e meu ex-professor de inglês Ricardo Heinen*, que se aventurou até o outro lado do oceano e ficou um mês na África do Sul estudando e passeando. O texto, bastante jornalístico, tendo em vista que esta era sua profissão antes de se tornar professor, nos revela uma visão interessante e diferente da segunda maior cidade daquele país. 
           Tem sido crescente a procura por pacotes e intercâmbios para a Cidade do Cabo, e todo mundo que vai para lá se encanta. Aqui está explicado um pouco do porquê.

"Pouco tempo antes de completar 50 anos, uma idade em que a maioria dos homens se ocupa com pouco mais do que família, trabalho, renda e aposentadoria, um dos meus alunos particulares mencionou ter garimpado uma atraente oferta de intercâmbio na Cidade do Cabo, África do Sul. A proposta envolvia um curso em uma renomada escola de inglês, acomodação individual e refeições em uma casa de família, passagens aéreas e transfer. As tardes sem aulas ainda prometiam tempo livre para eventuais excursões ao Cabo da Boa Esperança, a parques nacionais (safaris) ou vinícolas, além, é claro, de caminhadas ao longo das praias do Atlântico.
À época, Agosto de 2011, já tinha ouvido inúmeros testemunhos francamente favoráveis à organização e às belezas naturais dessa cosmopolita, moderna e rica ex-colônia holandesa e britânica, um movimentado entreposto comercial entre o Ocidente e o Oriente, mas a ideia de ficar hospedado em uma casa de estranhos, sem garantia de que poderia manter meus rituais diários de banho, siesta e leitura, parecia-me um tanto arriscada. Além disso, vitaminados pela distorcida mídia de que somos mais vítimas do que consumidores, meus receios tinham sido sempre maiores do que o poderia ser a curiosidade em relação ao continente africano. 
Viajar, no entanto, não me intimidava, tampouco me soava como algo extraordinário, pois não apenas há muito dominava a língua de Shakespeare como também já tinha visitado quase duas dezenas de países, mas será que essas aventuras, que tinham se dado em viagens de três dias a duas semanas, e quase todas baseadas na segurança daquele tripé mochila-albergue-Europa, poderiam me credenciar ao tão sonhado título de "a seasoned traveller" (um viajante experiente)? A ensolarada e distante Cape Town, como se chama em inglês, acenava então como uma possibilidade de variar um pouco o repertório, pontuado por visitas a Paris e Lisboa, e longas estadas na Inglaterra. Além disso, não corria o risco de pagar o mico de ser flagrado em excursões com guias que seguram bandeirinhas amarelas para turistas que tem o retorno ao lar em mente desde o momento da decolagem. Então,  o que havia a se perder? 
Baseado nessa premissa, a de que a vida começa ali bem onde se sai da zona de conforto, não hesitei em bater o martelo, e então, após a decisão ter sido tomada, a cada semana que passava aproximava-se a temida hora de partir para o desconhecido. Simon´s Town? Mergulho com tubarões? Com o pacote já comprado e todos os boletos pagos, "borboletas" me percorriam o estômago ao me deparar com aquelas informações que, ao me chegar aos olhos e ouvidos, sugeriam um mundo de mistérios ao mesmo tempo promissores e impenetráveis: senhora Latiefa Dawoo, 20 Carisbrook Road, Bokaap, Farid, Robben Island... Nomes estranhos que nem o Google Street View conseguia tornar mais familiar. 
 Todas essas apreensões iniciais, no entanto, começaram a se dissipar em primeiro de Janeiro de 2012 diante do eficiente serviço de bordo da South African Airways, ou, pelo menos, diante do efeito etílico de seus excelentes vinhos de bordo. Nem mesmo a visão de um imenso planalto avermelhado e árido, situado entre o litoral do Atlântico e o centro do continente, e tampouco a conexão perdida em Johannesburg me desanimaram. O transfer surpreendentemente funcionou, apesar do gorducho motorista ríspido que falava aquele incompreensível Afrikaans. Além disso, Cape Town me recebeu de cara amarrada, envolta em neblina, sem a vista do que lhe é mais belo, a Table Mountain, ou Devil´s Peak, ou Lion´s Head. Mas, com temperaturas próximas dos 20 graus em pleno Janeiro e a simpatia de Latiefa, uma muçulmana parda e sorridente que me conduziu a um aconchegante e amplo quarto decorado com padrões de zebra, as primeiras impressões foram ainda mais tranquilizadoras.

Na primeira manhã, após um café ao qual não faltou sequer peanut butter, sr. Gafoor, o marido, fez questão de conduzir-me em seu Jetta preto até (literalmente) a porta da escola, chamada Good Hope Studies, uma instituição que se revelou um achado. Bem organizada, agradável e muito moderna, sobretudo se comparada àquelas onde havia passado meses e meses na Inglaterra dos anos 90, a GHS situa-se no coração da cidade, entre o distrito financeiro e os Company Gardens, uma espécie de jardim botânico. A partir dela, tudo ficava perto, desde a estação de trens até o feérico Waterfront, desde o histórico Castle até as mesquitas de Bokaap, o bairro de casinhas coloridas onde fiquei instalado por 4 semanas inesquecíveis, e as quais vivi com a intensidade de uma adolescência tardia e apaixonada.

Ainda me é um mistério entender a origem do prazer diário de, mochila às costas, descer as Jordaan Street sob um sol morno e o canto dos pássaros locais. Logo a seguir, sob o colorido da bandeira do país, comerciantes negros montavam suas barracas de artesanato africano no Green Market, enquanto senhoras europeias dispunham antiguidades sobre bancadas na Market Street. A chegada à escola coincidia com o movimento nos cafés enquanto as lojas de departamento abriam suas portas. A cada dia, escolhia um novo roteiro, aleatoriamente, uma tentativa de apreender a razão do bem-estar que CT proporciona.

 A sala de aula constituía um recorte bastante preciso dos viajantes daquela extremidade da África: na maioria, jovens professores de inglês, alguns brasileiros e alguns suíços, além de alemães, argentinos e franceses. A professora, Ardine Fick, uma aquariana sempre preocupada que suas aulas fossem envolventes e que promovessem debates naturais e verdadeiros, guiava as atividades com a doçura de uma irmã e a mão de ferro de uma diretora de teatro, e assim garantia que as manhãs passassem a mil por hora. Não faltavam opções de lugares onde almoçar, embora meus prediletos fossem os restaurantes chineses ou japoneses. A comida sul-africana que conheci é quase intragável. E as tardes, após algumas horas passadas à sombra de um guarda-sol ou de algumas lojas, acabavam invariavelmente sob a vista inesquecível de uma Cape Town pontuada por minaretes e prédios high-tech, ou de uma praia incomparavelmente aprazível ou de uma montanha espetacular.

 O sol e o vento de Cape Town, que se espreme entre duas baías, podem nos pegar de surpresa, mas é a Table Mountain que merece todos os superlativos possíveis. À noite, após o jantar com os demais hóspedes da família sul-africana, saíamos para encontrar amigos recém descobertos e conhecidos nos bares, pubs e cyber cafés da Long Street, a rua mais boêmia da cidade. Em poucos dias, muitos rostos já haviam se tornado familiares, desde a loirinha gremista de Carazinho até o etíope magro e com dreads na cabeça, da francesa que bebia Coca-Cola cedo pela manhã ao segurança que mal falava uma palavra em inglês, e mesmo a mais escura das ruas já não parecia mais oferecer qualquer perigo.
Mas, como dizemos neste lado do oceano, o que é bom dura pouco, e em um piscar de olhos a terrível hora de voltar havia chegado. Um mês é muito pouco para a Cidade do Cabo. Sequer tinha escalado Lion´s Head nem me embriagado com os vinhos de Groot Constantia. Não tinha visitado um safari nem sequer conhecido Table View. Faltava comprar Amarula. E Hout Bay merecia um passeio demorado... "Next time!!!", como se diz por lá.
 Com algumas centenas de fotos, cinco quilos a menos e um bronzeado invejável, embarquei melancólico de volta ao Brasil. Estava não apenas mais leve, mas bastante rejuvenescido. Eu, que em geral volto de viagens à Europa com malas pesadas por causa das roupas para o frio, dos livros e daqueles "achados" em "Sales", dava-me conta de que, da Cidade do Cabo, eu retornava triste mas sem aquele peso imenso que talvez fosse a certeza de que o Brasil era sim o melhor país para se viver.

Viajar é preciso, mas voltar tem os seus percalços."


* Ricardo Heinen é professor particular de inglês e tradutor, com formação também em Comunicação Social pela UFSM.

2 comentários:

  1. O Ricardo foi meu colega de inglês lá e realmente como ele diz, um mês na África do Sul é muito pouco! Aproveitei minha adolescência tardia e apaixonante...eu não queria voltar, mas entendo que momentos especiais têm curto prazo de duração, mas na memória ficam pra sempre!

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  2. Ricardo, você tem razão em todas as suas abordagens nesse texto! Escolhi CT para meu primeiro intercâmbio devido a esses mesmos relatos que você compartilhou comigo durante o ano passado. À época foi difícil não se apaixonar por esse destino inusitado.
    Retornei de lá há alguns dias e posso também afirmar todos esses sentimentos sobre os quais você escreve. CT é apaixonante porque é uma cidade que tem vida e energia próprias. Estar lá muda sua forma de encarar as coisas; a minha própria existência pareceu se tornar mais leve; deixei de raciocinar cada coisa e procurei viver os momentos.
    O desafio é se haver com essa saudade agora. 4 semanas não foram o suficiente e, acho que por isso, me sinto na obrigação de fazer planos para voltar para lá o mais cedo possível!

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